Pintura Abstrata com Colagem
Minha bancada é um território vivo, um espaço onde o tempo não corre, mas se acumula. Nela, o papel deixa de ser um simples suporte para se tornar um companheiro de jornada. O meu processo criativo começa muito antes do primeiro corte ou da primeira colagem. Ele se inicia no tingimento manual de cada folha, um ritual de entrega onde preparo a base para o que virá. Depois, permito que esses papéis repousem sobre minha mesa de trabalho por meses a fio. Eles ficam ali, expostos ao cotidiano do ateliê, recebendo respingos acidentais de tinta, rabiscos impensados, marcas de impressões e o desgaste natural dos dias. Para mim, quanto mais marcas eles carregam, melhor. Cada mancha e cada vinco é um registro silencioso de uma história que começou muito antes da composição final, conferindo alma e profundidade ao material. Esta série de obras nasce da minha profunda inquietação sobre a passagem do tempo e o desenvolvimento pessoal. Vejo cada camada que sobreponho como uma analogia direta com a nossa própria existência. Na vida, assim como na minha arte, somos construídos por sobreposições. Cada camada representa um aprendizado, um novo saber que se assenta sobre o anterior, criando uma estrutura complexa e única. Nesse processo, os erros são não apenas aceitos, mas celebrados como parte fundamental da jornada. Eles não são falhas a serem escondidas, mas texturas necessárias que dão relevo ao que somos. Algumas marcas da vida são escolhidas por nós, fruto de nossos desejos, enquanto outras nos são impostas pelas circunstâncias. Compreendo que todas são essenciais para o amadurecimento e para a busca constante por harmonia e clareza, tanto no campo material quanto no espiritual. Minha relação com o papel é uma história de longa data, um afeto que remonta à minha infância. Lembro-me com carinho de quando minha maior diversão era construir pipas de seda para ganhar o céu. Ali, naquele manuseio delicado, aprendi sobre a leveza e a resistência desse material que me encanta até hoje. Mais tarde, durante minha formação em design, essa paixão se transformou em estudo técnico e admiração estética por revistas, folhetos e embalagens. A colagem surgiu, então, como a linguagem perfeita para expressar a multiplicidade e a hibridez que sinto em mim mesmo. O papel, com suas infinitas possibilidades, é o terreno onde minha criatividade se diverte e se encontra. O momento mais decisivo do meu trabalho é o ato da escolha consciente. Diante de tantos fragmentos carregados de vivências, cabe a mim decidir qual pedaço rasgado fará parte da obra, qual parte deve ficar de fora e quais elementos conversam entre si para gerar equilíbrio. Essa intencionalidade é a minha maior metáfora sobre o viver. Acredito que a vida nos oferece caminhos, mas a harmonia depende da nossa capacidade de escolher. Escolher significa, inevitavelmente, deixar algo para trás para dar foco ao que é verdadeiramente importante naquele momento. Na vida, não podemos apagar o que passou nem esquecer as marcas que nos moldaram, mas podemos avançar construindo novos desafios e conquistas sobre essa base sólida. Ao observar estas obras, convido você a reconhecer em si mesmo essa mesma multiplicidade. Minha arte é um convite para que você olhe para as suas próprias camadas e perceba a beleza da sua jornada de aprendizado e transformação. Que você possa sentir que, apesar das marcas e dos fragmentos, existe sempre a possibilidade de criar uma nova composição, mais consciente e harmoniosa. Espero que estas colagens despertem em você a percepção de que somos todos obras em constante construção, movidos pela coragem de escolher quem desejamos ser a cada novo dia.
Jean Louiss!
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